domingo, 27 de junho de 2010

Futebol: ópio do povo

Chico Buarque em amistoso da campanha de Lula para presidente(Imagem: Paulo Siqueira)

Em 1989, aconteceu na Vila Belmiro uma partida de futebol inusitada: um amistoso com um objetivo político explícito, de promover candidatura de Luis Inácio Lula da Silva à presidência da república do Brasil.

Já a Copa do Mundo é um evento completamente diferente. É uma competição de cunho político e econômico, mas estes fatos são obscurecidos por uma névoa circense de "maior espetáculo do planeta".
Die Religion ... Sie ist das Opium des Volkes
Religião é o ópio do povo
(Karl Marx, 1844)

"É este o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a religião, a religião não faz o homem. E a religião é de fato a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou não se encontrou ainda ou voltou a se perder. Mas o Homem não é um ser abstrato, acocorado fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este Estado e esta sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. A religião é a teoria geral deste mundo, o seu resumo enciclopédico, a sua lógica em forma popular, o seu point d'honneur espiritualista, o seu entusiasmo, a sua sanção moral, o seu complemento solene, a sua base geral de consolação e de justificação. É a realização fantástica da essência humana, porque a essência humana não possui verdadeira realidade. Por conseguinte, a luta contra a religião é, indiretamente, a luta contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião.

A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo.

A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião é, pois, o germe da crítica do vale de lágrimas, do qual a religião é a auréola.

A crítica arrancou as flores imaginárias dos grilhões, não para que o homem os suporte sem fantasias ou consolo, mas para que lance fora os grilhões e a flor viva brote. A crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que pense, atue e configure a sua realidade como homem que perdeu as ilusões e reconquistou a razão, a fim de que ele gire em torno de si mesmo e, assim, em volta do seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira em volta do homem enquanto ele não circula em tomo de si mesmo.

Consequentemente, a tarefa da história, depois que o outro mundo da verdade se desvaneceu, é estabelecer a verdade deste mundo. A tarefa imediatada da filosofia, que está a serviço da história, é desmascarar a auto-alienação humana nas suas formas não sagradas, agora que ela foi desmascarada na sua forma sagrada. A crítica do céu transforma-se deste modo em crítica da terra, a crítica da religião em crítica do direito, e a crítica da teologia em crítica da política"

(Karl Marx, Crítica da filosofia do direito de Hegel, 1844).

Futebol é legal de jogar. Também aprecio o futebol arte, aquele futebol moleque de várzea. Mas o espetáculo da Copa do Mundo é uma grande lavagem de dinheiro.  Quem mais investe em futebol são grupos como a máfia, os bicheiros, os traficantes, empresas corruptas e governos populistas. Tudo sob supervisão da máfia mór do Brasil e do mundo: as grandes companhias midiáticas, que querem ter certeza que estão conseguindo emburrecer seu público.

Enquanto o povo burro fica vendo futebol e novela, os cartéis empresariais que decidem os rumos do planeta estão se aproveitando. Assistir, comentar e discutir futebol alimenta o poder daqueles que estão atras das cortinas manipulando o mundo.

Mas além de uma ferramenta de emburrecimento global, futebol é também uma das novas religiões fundamentalistas que divide a humanidade, provoca discórdia e nos afasta  de nossa verdadeira essência: Somos Todos UM!

Fronteiras são ilusões. O planeta não tem fronteiras. A raça humana é uma grande fraternidade. Todos os seres vivos estão interligados. Há uma interdependência planetária que rege todos nós. Gaia, nossa Mãe Terra, chora por seus filhos que vivem na ignorância do egoismo e acreditam estar isolados e solitários nesta existência. Não temos mais tempo para separação, precisamos nos unir!

UM SÓ AMOR!
UM SÓ CORAÇÃO!
UM SÓ DESTINO!

Uma I-rmandade.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Pra que serve um blog?

Há uma falta de inspiração alarmante na blogosfera ou é só impressão minha?

O grande camarada Richard Plácido nos propôs esta reflexão. A resposta, para mim, foi repensar minhas origens como blogueiro. Meu comentário no artigo do Richard acabou virando uma quase-postagem, que você confere reproduzido aqui na íntegra:

Fala meu I-rmão Plácido!

Fazia tempo que eu não aparecia por aqui, e que surpresa agradável: um questionamento profundo e inúmeros comentários... e pasmem: com conteúdo.

Sua provocação surtiu ao menos um efeito: mobilizar a velha e a nova guarda da blogosfera para tecer comentários. Eu que não sou nem velho, nem novo, nem da blogosfera, também vou dar o meu pitaco. Ou não.

Há muito tempo atrás, eu escrevia no meu caderno desabafos, críticas e pensamentos que eu achava que ninguém ia ler. Até mostrava pra alguma namorada ou pretendente, mas não passava disso.

Passados alguns anos (após a invenção da correspondência eletrônica), uma amiga minha mandou um email besta, desses de corrente, e inadvertidamente copiou todos os colegas da sala e o professor, que respondeu de maneira rude e cômica. Iniciou-se assim a primeira discussão em grupo via email da minha vida, que depois se tornou o primeiro egroup do qual participei.

Muuuitos anos depois, eu ouvi falar de blogs. A princípio, não me interessei. Mas um dia, revirando meus cadernos, encontrei alguns de meus textos e resolvi criar um blog para publicá-los. Aproveitei e dei uma busca na minha caixa de emails enviados e selecionei os melhores.

E foi assim que comecei minha viagem na blogosfera. Na época, eu não conhecia o conceito de autoridade, Pagerank, BlogsBlogs e nem imaginava que havia um ranking brasileiro de blogs. Só me preocupava em publicar passagens interessantes de livros que eu estava lendo, criticando fatos e acontecimentos à minha volta e aproveitando para desabafar e descarregar algumas neuroses.

Foi algum tempo depois, quando eu estava trabalhando em um emprego desses bem chatos, em que se passa pelo menos 8h por dia em frente a um computador, que comecei a descobrir a tal blogosfera brasileira, o tuiter e tudo mais. A princípio, fiquei viciado em estatísticas, analytics, número de seguidores, subir no ranking e sei lá mais o quê.

Aí descobri o Movimento Slow Blog - blogar lentamente. E me redescobri. Desacelerei, me enraizei e voltei a me preocupar mais com a qualidade do que publicava do que com periodicidade ou frequência.

Alguns blogs que eu acompanhava morreram, outros maravilhosos surgiram. Alguns permaneceram, outros decaíram, outros viraram cópia de si mesmos, outros se reinventaram. Na blogosfera, um ano equivale a uma Era Geológica, e tudo se transforma.

Mas neste momento que te escrevo estas palavras, alguém como nós está descobrindo que existe uma coisa chamada blog, uma ferramenta bem simples que permite que qualquer pessoa se torne um editor de um site, e que da acesso a qualquer pessoa que busca informação, opinião, diversão, crítica ou somente uma risada rápida.

Eu, do meu lado, continuarei, seja no Irradiando Luz, seja como colaborador do UsuarioCompulsivo, seja na NerdsSomosNozes Magazine, seja no Vivo Verde, seja nos meus cadernos, nos emails, nos egroups, nas minhas dissertações e artigos.

Escrever é a minha produção mais prolífera nesta vida. Espero continuar produzindo até que meus dedos caiam, e até que eu fique mudo e não possa mais ditar. Quando eu morrer, não estarei mais aí para ser retuitado. Mas espero que ainda seja lido. Aqui. Ou lá.

Abração inspirado
Gabriel Dread
E você, bloga por quê? Lê um blog pra quê? Deixe seu comentário. Opine. Ou não.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Arnaldo Dias Baptista: Loki

Loki - Arnaldo Baptista e a banda Os Mutantes (Imagem: turquoise boy)
Loki - Arnaldo Baptista é um documentário cine-biográfico lançado em 2008 sobre a vida do gênio por trás da maior banda de rock do Brasil: Os Mutantes. Reverenciado no exterior, o compositor, cantor, multi-instrumentista, fundador e líder de uma das bandas mais criativas e geniais que o solo tupiniquim já nutriu, Arnaldo Baptista é um quase desconhecido em seu próprio país. O documentário premiado como Melhor Documentário pelo Júri Popular no Festival do Rio e da Mostra Internacional de São Paulo resgata o Arnaldo de seu retiro no interior de Minas Gerais para lembrar a todos de uma das maiores personalidades da música popular brasileira.
"O gênio é só um louco que deu certo" (Albert Einstein)

Loki narra a trajetória musical de Arnaldo, desde a banda de garagem Six Sided Rockers, no início da década de 1960, até a consagração com a banda Os Mutantes, o casamento apaixonado com Rita Lee e as loucuras movidas a LSD no início dos anos 1970. Depois, narra a dura e repentina separação, a decadência, a loucura, a tentativa de suicídio, o coma, para culminar na recuperação, um novo amor, o retiro no interior de Minas Gerais e a volta triunfante com o album solo Let it Bed em 2004 e a reunião d'Os Mutantes em 2006 (com Zélia Duncan no lugar de Rita Lee) e com o show em homenagem à Tropicália realizado no Barbican Centre, em Londres, na mostra Tropicália - A Rrevolution in Brazilian Culture.

Todas as fases da vida do músico são lembradas por personalidades que conviveram e admiram o compositor, como Tom Zé, Lobão, Nelson Motta, Gilberto Gil, Sergio Dias, Dinho Leme, Zélia Duncan, Liminha e Rogério Duprat, além de sua mãe, a pianista clássica Clarisse Leite, e de sua segunda mulher, a atriz Martha Mellinger.

Fãs internacionais de Arnaldo, como Kurt Cobain, Sean Lennon e Devendra Banhart – que afirma que os Mutantes são melhores que os Beatles – também prestam suas homenagens ao ídolo e reiteram a importância de Arnaldo Baptista na história da música, não só no Brasil, mas no mundo.

A falta de depoimentos de Rita Lee no documentário chama atenção, o que levanta suspeitas de que ela ainda não tenha superado as mágoas da separação. Talvez ela se sinta em parte responsável pela depressão e decadência que seu ex-marido viveu após o rompimento do casamento. Me lembro que em 2006, quando Os Mutantes anunciaram que voltariam à ativa, ela fez declarações despeitadas, afirmando "o revival é um bando de velhinhos espertos, sim, tentando descolar grana para pagar geriatra!" Mas apesar de depor contra ela, sua ausência no documentário não diminui o mérito do filme.

Uma das cenas mais hilárias e psicodélicas do filme é a que mostra a participação da banda Os Mutantes no programa da TV Cultura Jovem Urgente, apresentado por Paulo Gaudêncio, psiquiatra e professor da PUC-SP. O programa era dirigido aos jovens e seus pais, em linguagem coloquial e direta, acessível ao público não especializado. A estrutura era simples: um grupo de jovens e pais sentados em círculo e o psiquiatra Paulo Gaudêncio no centro, numa cadeira giratória, com uma prancheta e pincel atômico para eventuais explicações.

Qualquer semelhança com Serginho Groisman é mera coincidência. Mas ao contrário do apresentador global, que prefere desfilar de mãos dadas com as autoridades, o Jovem Urgente foi o primeiro programa de televisão a sofrer censura pela Ditadura Militar no Brasil. Em 1969 e sua exibição foi proibida em todo o território nacional. Um dos motivos que levou a isso foi a participação de um bando de jovens artistas dos mais malucões pra falar "aquilo que os jovens musicalmente estão dizendo e os adultos não ouvem": os Novos Baianos, os Mutantes e Tom Zé. Assista abaixo a participação dos Mutantes em um trecho extraído do filme:

Interessante notar que nesta época eles ainda nem haviam experimentado o LSD, mas já dominavam a psicodelia, a inovação e a criatividade artística sem o artifício de enteógenos.

O filme perde um pouco o ritmo em algumas passagens, especialmente quando mostra as cenas atuais de Arnaldo e sua esposa em sua casa. A tentativa de trazer um tom dramático e de emocionar o espectador falha em alguns momentos, provocando a perda da concentração, mas isso é compensado pela excelente trilha sonora, repleta de clássicos dos Mutantes, como Qualquer Bobagem, Ando Meio Desligado, Balada do Louco, Top Top, Tecnicolor e Panis et Circenses, algumas delas em versões raras, além de músicas da primeira banda de Arnaldo Baptista, O’Seis; de sua carreira solo; e de outros projetos idealizados pelo compositor, como a peça de teatro Heliogábalo, da qual foi diretor musical, e os grupos Patrulha do Espaço e Unziotro. O documentário revela enfim a personalidade, a genialidade e a pessoa de Arnaldo Dias Baptista, o Syd Barret brasileiro
Dizem que sou louco por pensar assim
Mas louco é quem me diz e não é feliz
Eu sou Feliz
(Arnaldo Baptista, A Balada do Louco)

Ficha Técnica
Título: Loki - Arnaldo Baptista
Duração: 120 min.
Ano de lançamento: 2008
País de origem: Brasil
Gênero: Documentário
Direção, Roteiro e Montagem: Paulo Henrique Fontenelle
Empresa Produtora: Canal Brasil
Produção Executiva: André Saddy, Isabella Monteiro
Direção Fotografia: Marco Moreira
Música: Arnaldo Baptista e Os Mutantes

Nota: 9

Assista o trailer:


O filme completo está disponível no YouTube em 16 partes. Mas tome vergonha na cara e compre o DVD que vale mais a pena!

Fonte:
Arnaldo Dias Baptista - site oficial
Arnaldo Baptista - Wikipedia
Os Mutantes - Wikipedia
Jovem Urgente, 1969 - blog Vitrola
Loki: release ofical - Canal Brasil


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