terça-feira, 20 de julho de 2010

Lei da Palmada: um tapinha não dói?

Quem ama educa. (Imagem: campanha Não bata. Eduque)

Um projeto de lei enviado em 14 de Julho de 2010 pelo governo ao Congresso estabelece o direito da criança e do adolescente de serem educados sem palmadas e beliscões. A proposta do governo, que vai ser discutida agora na Câmara e no Senado, proíbe qualquer tipo de castigo físico que provoque dor em menores de idade.

Prossigo aqui com um debate inciado no artigo "Lei da Palmada: um tapa na bunda da educação" do blog Cadê meu Dorflex? do Marcel.

Sou filho e pai. Nunca apanhei e nunca bati, não pretendo bater. Sou um cidadão honesto, uma pessoa decente que paga suas contas em dia, não tem dívidas e procura não infringir a lei.

Sou também muito mais do que isso: acredito no amor, na liberdade, na sustentabilidade, na agricultura orgânica, na gestão coletiva por consenso e na administração verdadeiramente emancipatória. Respeito as autoridades, minha família e procuro ampliar meu respeito e minha compaixão a todos os seres humanos e outras espécies também.

Nunca apanhei na vida (mas já tomei alguns sustos da vida e aprendi com isso mesmo sem dar porrada) e aprendi tudo isso sem violência nem agressão.

Considero a lei anti-palmada um grande avanço. Alguém que só consegue ensinar algo na base da porrada não merece respeito. Merece cadeia.

Ensinar através do amor e assim conquistar o respeito de quem quer que seja é o caminho para o aprendizado, é a verdadeira educação.

Vejo uma visão consolidada e dominante na nossa sociedade que considera que a via para impor limites às crianças é dar um tapa. Vejo também uma visão reacionária de mundo que considera que as crianças mimadas e os adolescentes revoltados são simplesmente aqueles que não apanharam o suficiente.

Discordo completamente de ambas as visões. Se você souber criar seu filho, não vai precisar bater nele. Acredito que o tapa não tem função pedagógica nenhuma. Um tapinha pode não machucar fisicamente, pode não ser uma porrada. Mas é o atestado de incompetência dos pais. Quem bate já perdeu o respeito dos filhos e o controle sobre si mesmo.
“Agredir alguém que não tem capacidade de defesa é covardia. Não se trata de autoridade nem de respeito. Acredito que a lei anti-palmada seja pró-educação sim, porque o pai não tem mais a opção de "corrigir" causando repressão/medo, assim só resta a educação/respeito.” (Wendely Leal)
Não estamos em um mundo ideal. Porque no mundo ideal, as pessoas que não estão preparadas para educar não teriam filhos. Mas neste mundo imperfeito, o sexo tornou-se banal e está dissociado da sua conseqüência natural, que é a gravidez. Assim, milhões de pessoas copulam inconsequentemente e depois, ao se darem conta que não estão preparadas para serem pais, abortam ou então "educam" com tapas.
“O tapinha na bunda, em uma criança de 1, 2, 3 anos, não resolve NADA, NADA mesmo, só aumenta o choro da criança. Nem em cachorro se bate mais para adestrar não é?” (Van O'nil)
Há quem afirme que não adianta ficar falando, porque as crianças não aprendem assim. Eu pergunto: a única maneira de educar é o diálogo? Já ouviram falar em atitude coerente? Em ensinar pelo exemplo? Crianças pequenas não sabem dialogar mesmo. A solução é impor sim limites, e zelar para que eles sejam respeitados. Mas sem violência, apenas com respeito e autoridade que se conquista com amor e parcimônia.

Outras pessoas se sentem no direito de agredir ou punir seus filhos porque estes têm comportamentos inaceitáveis como correr dos pais na rua, mexer em coisas caras em uma loja, atirar comida durante a refeição ou agredir outra criança ou um adulto. Eu questiono: você acha que uma criança que corre, tem curiosidade e que gosta de brincar precisa ser punida por isso? Crianças de 5 anos fazem exatamente isso: gostam de brincar de pega-pega, gostam de correr, tem curiosidade e vão querer pegar as coisas que não conhecem na mão para conhecer melhor, fazem lambança com a comida mesmo. E de vez em quando podem perder o controle e agredir alguém.

Minhas sugestões: brinque mais com seus filhos e defina claramente quando você está brincando e quando está falando sério. Apenas o tom de voz e a linguagem corporal já resolvem. Não leve eles em "lojas caras" cheias de coisas que quebram, pois não são ambientes saudáveis para crianças de 5 anos. Deixe seu filho atirar comida pelo menos uma vez na vida e satisfazer sua necessidade e economize uma boa grana em terapia depois. No caso de a criança agredir outras crianças ou adultos: em hipótese alguma bata nela de volta. Se você der um tapa, vai ensinar que é assim que devemos reagir quando perdemos o controle.

Há quem faça uma relação direta entre crianças que não apanham se tornarem filhos mimados que fazem seus pais passarem vergonha. Azar o seu que se envergonha de uma atitude que é natural em uma criança. Ao invés de buscar ajudar a criança a resolver seu xilique (segurando ela firmemente, por exemplo, para que ela gradualmente volte a ter controle sobre seu próprio corpo), você está mais preocupado com o que as outras pessoas vão pensar de você?

Eu não sei qual atitude me da mais vergonha alheia: ver uma criança esperneando ou ver seus pais sentando a chinela para "resolver o problema".

Pode até ser que existam correntes da Psicologia do Desenvolvimento Infantil que afirmam que um tapinha é aceitável. A ciência, no entanto, não é neutra, mas é fruto de sua época. Se você espera verdades absolutas, sugiro a religião que se propõe a isso. A ciência só tem respostas transitórias. Diferentes correntes pedagógicas e psicológicas se contradizem o tempo todo. É fácil arrumar um "cientista" que afirma qualquer besteira para embasar nossos preconceitos. Vou dispensar você de citações e autores por hora, mas sugiro que você procure no Google “Educação Ativa” e “Pedagogia Libertária”, duas correntes que vão confirmar alguns de meus pontos de vista expressos anteriormente.

Para resumir minha visão de educação, afirmo: educar é tratar as crianças como seres humanos, sem considerá-los como inferiores ou "pessoas em construção", mas simplesmente como pessoas.

Acho importante não reduzir toda a questão educacional à falta de tapas na criação. Eu te pergunto: quem está realmente criando seu filho?

Infelizmente, são pouquíssimos os pais que decidem assumir de verdade a educação de suas crianças. A maioria delega rapidamente esta responsabilidade para creches, babás, escolas ou parentes distantes, se limitando a recompensar comportamentos adequados com presentes (como substituto para o amor que não doam) e tapas e castigo como punição para comportamentos inadequados.

Talvez estejam reproduzindo o que aprenderam com seus pais: ao invés de respeitar o ser humano com o qual está se relacionando, delega a responsabilidade a outros e se contenta em vigiar, punir e estimular com bens materiais.

Onde está o amor? O que é educação para você?

Com amor, muito amor mesmo!
Gabriel Dread

Obs: Se você tiver dificuldades para educar seu filho, veja algumas dicas para pais e educadores

Assista também o video oficial da Campanha Não Bata. Eduque:

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A ciência é neutra?

Vai um tubo de ensaio aí? (imagem: SandiaLabs)
Você acredita que a ciência é - ou pode ser - neutra (desprovida de valor moral)?
"Dizer que alguma coisa é boa ou má, melhor ou pior, é dar um julgamento humano. Só um homem pode dizer que uma coisa é boa ou má - e não se discute. Nenhum procedimento científico pode conter uma resposta sobre a relativa desejabilidade de uma coisa. [...] É nesse sentido que a ciência é neutra. Não é neutra por haver alguma virtude essencial em ser neutra. É simplesmente a natureza da ciência, que está em testar relações empíricas entre fenômenos ou variáveis - e, para fazer isso, exige que o fenômeno seja de natureza a ser observado, manipulado ou medido"
(Fred N. Kerlinger. Metodologia da pesquisa em ciências sociais. São Paulo: EDUSP, 1980)
Muitos cientistas querem afirmar a neutralidade, mas a verdade é que somos naturalmente parciais. Nenhum ser humano pode reivindicar percepção completa do Todo. Sendo assim, a ciência, como fruto da criação humana, não é neutra.

O mito da ciência pura e neutra é desconstruído por Marx, Weber e mais um monte de autores. Toda e qualquer observação de fatos não é desprovida de valores, e a própria escolha do objeto de pesquisa depende de preferências pessoais do pesquisador. Pesquisas científicas são financiadas por pessoas ou instituições com interesses políticos.

Quem diz que é neutro basicamente esta apoiando o status quo. Não há como ficar em cima do muro no mundo real. Algumas citações sobre o assunto, um pouco mais relevantes do que as minhas próprias (ou não):
“Uma base para a vida e outra para a ciência constituem a priori uma mentira.”
(Karl Marx. Manuscritos Econômicos-Filosóficos. Lisboa: Edições 70, 1971)
Para Marx a ciência não é autônoma por três motivos:
1- Uma ciência que se diz autônoma é ideológica, ela oculta seus comprometimentos sociais. Assim, ela não é nem autônoma nem neutra.
2- A ciência, conforme Marx, tem um papel político que deve ser cumprido.
3- A ciência estar na superestrutura e, portanto, é determinada pela esfera econômica.
“O fim precípuo de nossa época, caracterizada pela racionalização, pela intelectualização e, principalmente, pelo “desencantamento do mundo” levou os homens a banir da vida pública os valores supremos e mais sublimes. Esses valores encontram refúgio na transcendência da vida mística ou na fraternidade das relações diretas e recíprocas entre indivíduos isolados.”
(Max Weber. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Martin Claret, 2006)
A visão de tradicional de ciência social (representada por Kerlinger na primeira citação deste artigo) é fundamentada em uma psicologia comportamental que advoga a neutralidade e o experimentalismo como seus pilares, tomando emprestados pressupostos da ciência natural de forma acrítica. É importante ressaltar que a suposta neutralidade reivindicada pela escola comportamental não é desprovida de valor ético, pois ela acaba por servir à manutenção do poder já consolidado.
"[...] as ciências naturais do Ocidente não se fundamentam numa forma analítica de pensamento, já que se viram apanhadas numa trama de interesses práticos imediatos. [...] No fim de contas, as ciências naturais podem ser perdoadas por sua ingênua objetividade, em razão de sua produtividade. Mas essa tolerância não pode ter vez no domínio social, onde premissas epistemológicas errôneas passam a ser um fenômeno cripto-político - quer dizer, uma dimensão normativa disfarçada imposta pela configuração de poder estabelecida."
(Alberto Guerreiro Ramos. A Nova Ciência das Organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. 2 ed. Rio de Janeiro. Fundação Getúlio Vargas, 1989)
Na minha opinião, os cientistas têm de tomar posição política! É nossa obrigação como cientista fazer intervenção social com consciência e propósito político. A ciência é e sempre será engajada.

E aí, qual sua opinião? A ciência é neutra?
Você acredita que o cientista tem um papel político a cumprir na sociedade?
Qual o papel da ciência na sociedade atual?

[Fonte: Ciência e Cognição; Agência FAPESP]
*Este artigo foi escrito enquanto Brasil e Chile faziam uma partida na Copa do Mundo de 2010.
Afinal, futebol é o ópio do povo!


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