sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Damos Graças à Água da montanha


por Ras Carlinhos*

"Água, bebam água", Foram as palavras de Harrison Stafford, vocalista do Groundation, quando falávamos da energia que envolve concertos como o realizado na madrugada do dia 14/03/2009 em Florianópolis. Faço da sua fala a minha e agradeço a fonte que nos regará durante a vida.

Neste tempo de crises, onde a humanidade se encontra em um colapso do sistema de valores vigente, será ela que vira purificar. A chuva cai do céu, lava tudo e tudo leva ao mar. Após anos, décadas e séculos de intensas pertubações aos ciclos, a sociedade ainda se julga vitima de catástrofes que não passam de efeitos, na mesma potência que as causas. Efeitos que cumprem um papel para a regeneração da terra e seus ciclos.


Facilmente ao refletir, chega-se a conclusão que os padrões e comportamentos sociais não são sadios. Logo cria-se a consciência ecológica que hoje se fala tanto. Mas só a consciência não basta, é necessário a atitude pra fazer a revolução. Revolução se faz todos os dias, consigo mesmo. Ao vencer barreiras da sua evolução e aceitar-se nas limitações impostas pelo ser.

Reconhecendo-se como filho do sol e da terra, a vivência Rasta busca equilíbrio interno quanto o corpo e mente e externo quanto ao envolvimento com outras vidas e elementos. Do homem ao pássaro, da planta a larva, devem ser tratados com respeito e igualdade. O Rasta sabe da integração planetária (e também cósmica) que une Todos a Tudo, fazendo parte de um mesmo organismo no qual tudo interage e necessita de uma troca que se faz um com o outro.


Se na Natureza acontece algo de uma forma, ela provavelmente está certa, visto seus 4,5 bilhões de anos de experiências. Ela quem nos inspira e na música encontramos alento espiritual e energia para cumprir certos propósitos. A união em torno de palavras e ritmos nos conecta com o passado ancestral e nos proporciona visões do futuro ideal. Assim a integração pelo som nos eleva para espalhar mensagens por toda a Terra.


Com a alimentaçao I-Tal (VITAL, integral e orgânica, livre de aditivos) suprimos nossas necessidades de uma forma harmônica tanto para nosso corpo e mente como para a natureza. Respeitando todos os ciclos desde a integração com os produtores e o plantio dos alimentos, pagando preços justos pelos mesmos, para no fim dar destino adequado para restos e dejetos frutos do dia-a-dia.

É necessária a cooperação de todos para a divulgaçao e construção destas vivencias que visam a coerencia de nossas ações. Chamamos a todos que desejam contribuir com o seu amor e força para que juntos façamos uma otima celebraçao à vida.

Luz e Amor a todos!
Através de Eu e Eu fala Jah,
Ras Carlinhos

Ras Carlinhos é Rasta, vegetariano, naturalista, agrônomo, músico e compositor.
Confira seu projeto musical Rasta Revolution.












Este artigo faz parte do Blog Action Day 2010 - Água.

Imagens: Gabriel Dread

2o turno das críticas à democracia representativa

Democracia: poder do povo?
Muito se fala a respeito das velhas mídias - televisão, jornais e revistas - estarem perdendo espaço para as novas mídias - blogs e afins - fato que ficaria demonstrado pelo resultado do primeiro turno das Eleições 2010. O que me impressiona é que tanto a velha mídia quanto a nova praticamente ignoram o fato que a democracia representativa é uma grande farsa.

A ilusão da escolha é alimentada tanto por televisão, jornais e revistas quanto por blogueiros, tuiteiros e correntes de email. Raros são aqueles que vão a fundo na questão e buscam entender de fato que é essa tal democracia representativa. Ela é parte de um grande "pão e circo" que serve para deixar a massa alheia a seu próprio poder de ação e decisão.

Mesmo que todos os políticos viessem de pau de arara como o Lula, ainda assim eles não representariam o povo, pois eles são apenas os bobos da corte escolhidos para iludir a massa enquanto os verdadeiros governantes (as elites oligárquicas) seguem livres, manipulando tudo. O presidente é o equivalente ao ancora de um telejornal: apenas uma figurinha carismática que concentra atenções. Raros são os políticos que podem ser considerados editores-chefe, quanto mais donos da rede de televisão.

Os políticos profissionais existem porque os poderosos aprenderam que é melhor divergir a atenção da massa para uma figura simbólica, descolada da imagem de elite ou do setor privado. Assim como o Grande Irmão - da obra 1984, de Geroge Orwell-, os líderes políticos não são nada mais do que representantes de uma elite, o Partido Interno, que na realidade é composto pelas velhas oligarquias que comandam o mundo desde sempre, seja na figura de coronéis, senhores de engenho, nobres ou papas, seja na figura de acionistas, especuladores, CEOs ou personificado nas transnacionais e grupos corporativos.

Isso não é exclusividade do Brasil. Nos Estados Unidos da América e nos países da União Europeia acontece o mesmo, mas o elitismo fica oculto sob uma aparência de "sucesso e desenvolvimento". Mas a verdade é que estes supostos países industrializados e desenvolvidos vivem uma série de crises econômicas, produtivas e ecológicas. Não são modelos a serem imitados pelos subdesenvolvidos, mas exemplos do que NÃO se deve fazer. Em qualquer Estado, existe uma elite/oligarquia que domina e explora a massa. A democracia representativa é um dos entorpecentes legalizados.

A esta altura, se você for um adepto do Capitalismo "utópico", você deve estar pensando: "Igualdade é permitir a todos as mesmas oportunidades e condições de progredir". Lamento informar, mas no sistema "capetalista", alguns são mais iguais do que outros. A promessa de oportunidade iguais, professada por conservadores e neo-liberais em uníssono, é uma mentira tão deslavada quanto a promessa de que a "mão invisível do mercado" vá dar conta dos problemas da humanidade. Quem nasce no esgoto da favela do submundo tem as mesmas oportunidades que um filho da elite?

Talvez seja para alimentar esta ilusão que foi permitido ao Lula, filho do Brasil, chegar ao "poder". É conveniente para as elites alegar que as chances são iguais para todos, afinal "até um torneiro mecânico pode se tornar presidente de uma nação". Cabe resaltar que Lula só conseguiu sucesso porque é trabalhador dedicado e esforçado, ao contrário de 35% da população brasileira que vive com menos de um salário mínimo por mês porque é preguiçosa e indolente. Aham... Pergunta pro Lula o que aconteceu com os companheiros não foram mamar nas tetas do sindicato e viver de politicagem, mas que continuaram trabalhando honestamente no chão de fábrica.Quantos deles viraram "gente que faz"? Quantos são hoje banqueiros, CEOs, especuladores internacionais?

A classe dos burocratas da política - corruptos, interesseiros, superficiais e vazios de conteúdo - não existe somente no nosso país , e não existe simplesmente por culpa de um eleitorado com baixo nível educacional e despolitizado. Isso é o que a mídia quer nos empurrar guela abaixo com o discurso politicamente correto do "voto consciente".

Não existe voto consciente, existem pessoas conscientes. A consciência deve se refletir em todas as ações e intervenções das pessoas no mundo, não em um mero ato simbólico e esporádico de votar. Voto é a ilusão do poder que é estéril e impotente. O verdadeiro poder emana a todo instante, Aqui e Agora, o tempo todo em toda parte. Todo poder ao povo.

Não adianta procurar culpados. Culpa é um conceito cristão que nos impede de viver plenamente, a interiorização de uma força superior a nos julgar e condenar. A responsabilidade é nossa. Depositar todas as atenções em entidades cósmicas, como "democracia", "mercado", "Eleições", solapa nosso poder. Coisas boas acontecem em toda parte apesar da falsa democracia representativa e outros regimes totalitários...  e acontecem pela ação. Ser ativo não é votar nem mesmo protestar, mas sim colocar a mão na massa e fazer diferente.
"Seja a mudança que você quer ver no mundo"
Mahatma Gandhi

O que você faz para mudar a si mesmo e o mundo?

Imagem: Congresso nacional, por beatriz marqs

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Vlog Irradiando Luz - Episódio Piloto

Democracia: uma piada sem graça

Na ocasião do primeiro turno das Eleições brasileiras para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual de 2010, decidi fazer uma intervenção crítica e bem humorada. Me vesti a caráter para exercer meu papel de palh... cidadão e eleitor.

Munido de minha cola, um nariz de palhaço e uma câmera, me dirigi até a "Zona" Eleitoral para registrar este momento solene da "Festa da Democracia".

Minha cola: traidor do movimento #votonulo

Aproveitaria a ocasião para lançar o novo projeto do Irradiando Luz: um canal no Youychubi. Isso mesmo, o vlog "Irradiando Luz ao YouTube" finalmente deixaria de ser uma promessa política pra virar realidade.

Infelizmente, eu me esqueci de carregar a bateria da câmera e só consegui filmar alguns segundos da minha intervenção. Mas como sou brasileiro e não desisto nunca, caprichei na edição para conseguir levar a cabo minha missão "anti-democrática". (Conheça melhor minha posição a respeito da farsa da democracia)

Assista o video, comente, divulgue e assine o canal no YouTube. Irradie Luz.

A propósito: lançamos também o twitter oficial do blog. Siga @IrradiaLuz e seja feliz também no serviço mais popular de micro-blogging.

Positivas Vibrações!
Gabriel Dread

sábado, 2 de outubro de 2010

Democracia representativa: um conto de fadas. Você acredita na farsa?

Votar ou não votar? Eis a questão?!? Ou não...

Voto Nulo pergunta para Indecisos e Des-iludidos: Vocês ainda acreditam na farsa da democracia representativa?

Respeitável publico, o Grande Circo da Mídia apresenta o numero dos palhaços, estrelando Dilma do PT, Serra do PSDB e Marina do PV. Atiçando os leões, Plínio de Arruda surge como figura solitária e opositora a rugidos quase idênticos.

Paira no ar uma visão apocalíptica das Eleições 2010. A mídia induz o povo a acreditar que o governo do PT tem um viés ditatorial populista que se assemelha à Venezuela de Hugo Chavez. Reacionários e neoliberais explicitamente direitistas declaram seu voto na Marina Silva do Partido Verde. O José Serra do diz que é candidato esquerda. É possível acompanhar esta fanfarra e encontrar alguma coerência?

Onde esta o debate sobre os projetos políticos e ideológicos dos candidatos e seus respectivos partidos? Soterrado sob escombros de acusações e difamações. Debater politica não é só falar mal dos políticos, ao contrario do que a mídia propaga.

A troca de acusações entre Serra e Dilma oculta uma agenda política praticamente igual dos dois partidos, e de quase todos os outros. Não existem diferenças substanciais na pratica político-partidária. Luís Inácio Lula da Silva e o PT continuaram o projeto neoliberal do governo de Fernando Henrique Cardoso do PSDB com "maestria".Os únicos partidos com propostas de ruptura não tem a menor chance de ser eleitos. Quem tem poder não vai abrir mão dele...

No meu entendimento, o problema da politica brasileira e mundial é estrutural e institucional. Focar na critica a uma figura, ou mesmo um partido desvia a atenção das pessoas do que realmente importa para uma fraude enganatória que beira o ridículo. O partido não é o TODO. O problema não é o partido, uma parte, mas a totalidade do sistema no qual esta inserido. Esse sistema babilônico que nos engana com suas ilusões, seu véu, maya. Propagar informações relacionadas a este lamaçal das oligarquias politicas brasileiras, tomando partido, é reforçar o poder e adensar a cortina de fumaça.

Meu resumo da campanha eleitoral para presidência do Brasil é o seguinte: os principais candidatos fazendo propostas genéricas, indiferenciáveis, com um teor altamente desenvolvimentista neoliberal. Plínio de Arruda foi o único que falou sobre alguma coisa mais substancial: a dominação social e econômica do povo pela elite.

(Leia meu artigo sobre o #plinioarrudafacts no UsuárioCompulsivo)

Mas nem mesmo o candidato do PSOL (50) tocou no cerne das questões políticas urgentes: educação desinstitucionalizada, valorização e construção de cultura, para que o povo brasileiro finalmente atinja um nível de auto-organização com autonomia, permitindo enfim o fim da farsa da democracia representativa.

O reino da politica não é o reino dos tecno-burocratas políticos. As instancias decisórias são ocultas, não explicitas. A ilusão da escolha do voto é análoga à ilusão da escolha do consumo. Qualquer partido que ganhe fará alianças e concessões a quem manda de fato. A eleição serve apenas para escolher o fantoche do mercado. As verdadeiras decisões politicas já foram tomadas por quem realmente tem poder: as transnacionais aliadas às velhas oligarquias dominantes.

Caminhão de lixo eleitoral.
Esta farsa chamada democracia representativa cria a classe tecno-burocrata dos políticos, que além de representarem apenas a si mesmos, suas oligarquias e seus patrocinadores, drenam uma quantidade considerável de recursos públicos. Neste contexto, votar nulo é pouco.

(Leia meu artigo sobre o #votonulo no UsuárioCompulsivo)

Chega da farsa eleitoreira! Lute pelo que vale a pena lutar: aja, não fique de #mimimi.

Chega de desgastes em debater o simulacro. A realidade esta aí, o poder esta em todos nós. Revolução interna se reflete em ação. Empodere-se, exerça seu poder de forma a transformar a realidade de forma positiva.

Todos nós temos poder e podemos nos organizar para exercê-lo. Fora das instancias oficiais. A verdade está lá fora! Somos todos UM. Temos o poder transcendental coletivo a nossa disposição...

Basta nos mobilizarmos. Tuiter e blog são algumas das armas que dispomos para conscientização e formação de massa critica. Vamos canalizar nossos esforços... Em prol do que realmente vale a pena: a vida!

Nos organizarmos coletivamente para esvaziar sentido e significado da falsa democracia. Não devemos deixar o medo do que não queremos superar a vontade de transformar a realidade no que queremos.

Chega de elite dirigente! Chegou a hora de auto-governo local e interdependência regional, nacional, internacional e planetária.

O impossível torna-se possível se você quiser! A revolução é agora! Ela não será televisionada! Será que poderá ser tuitada ou blogada?

Imagens: Urna eletrônica, por José Cruz; Caminhão de lixo eleitoral, por Gabriel Dread.

Nossas experiências com a verdade

A iluminação pode ser alcançada com bom humor.
Mohandras K. Gandhi, o Mahatma, foi um dos primeiros orientais a escrever uma auto-biografia. O livro, intitulado "Minha vida e minhas experiências com a verdade" resume muito bem minha intenção com este blogue e com minha vida.

Me sinto caminhando no comecinho da trilha que esta Grande Alma (Mahatma; Maha=grande; Atma=alma) Gandhi trilhou até chegar ao fim...

Minha Vida e Minhas Experiências com a Verdade


(...) Um amigo religioso questionou-me a respeito:
-O que o leva a embarcar nessa aventura? - perguntou-me -. Escrever autobiografias é uma prática típica do Ocidente. Não conheço ninguém no Oriente que as tivesse escrito, com exceção dos que se ocidentalizaram. Além do mais, sobre o que escreveria? Suponha que amanhã o senhor rejeite os princípios que o orientam hoje, ou então que suas intenções presentes não sejam as mesmas no futuro. Não é provável que as pessoas que se espelham em sua palavra, escrita ou falada, se sintam desorientadas? Não acha que é melhor não escrever nada parecido neste momento?

A argumentação de meu amigo causou-me impacto. Não é minha intenção escrever propriamente uma autobiografia. Apenas desejo contar a história de minhas várias experiências com a verdade. Uma vez que minha vida está repleta delas, pode-se dizer que a história tomará a forma autobiográfica. Mas nada disso importa, contanto que cada página do livro relate apenas essas experiências.

Embora possa parecer um auto-elogio, acredito que um relato pessoal delas será benéfico ao leitor. Minha atuação no campo político é do conhecimento de todos, não apenas na Índia, mas de uma certa maneira no mundo "civilizado". Não a considero de grande valor, e muito menos o título de Mahatma, que me foi concedido. Na verdade, o título causou-me muito sofrimento e não consigo lembrar de um único momento em que tenha me agradado. Contudo, acredito que terei imenso prazer em narrar minhas experiências no campo espiritual, que são do meu conhecimento apenas e de cuja força me alimento para conseguir trabalhar na política. Se sua natureza for verdadeiramente espiritual, não há espaço para o auto-elogio. Elas apenas tornam-me mais humilde. Quanto mais reflito sobre o passado, mais minhas limitações se fazem presentes.

O que pretendo alcançar, o que na verdade venho tentando ansiosamente alcançar nos últimos trinta anos, é a auto-realização, encontrar-me frente a frente com Deus, atingir o moksha [liberação, redenção espiritual - o bem humano definitivo]. Minha vida e meu ser caminham em função deste objetivo. Tudo o que faço, falo e escrevo, todas as minhas incursões no campo político, têm essa finalidade. Como sempre acreditei que aquilo que é possível para mim é possível para todos, minhas experiências não acontecem às escondidas e sim abertamente, o que em nada diminui o seu valor espiritual. Há coisas a nosso respeito que só Deus e nós mesmos sabemos. O que narrarei aqui não são dessa natureza. São acima de tudo vivências de natureza espiritual e também moral, pois a essência da religião é a moralidade.

Incluirei nesta história somente os aspectos da religião que possam ser compreendidos por todos, inclusive crianças e idosos. Creio que ao narrar minhas vivências com o espírito desprendido e humilde, as pessoas poderão encontrar subsídios para seguir seu caminho por meio das suas próprias trajetórias. Com isso, não estou absolutamente insinuando que minhas experiências sejam perfeitas. Dispenso-lhes a mesma importância que um cientista, cujos experimentos são conduzidos com precisão, intuição e minúcia, mas que jamais chega a um resultado absoluto e sempre mantém a cabeça aberta. Passei por vários estágios de introspecção, vasculhei meu interior e analisei cada aspecto psicológico das situações. Mesmo assim, estou longe de qualquer conclusão final ou infalível a respeito do que vivi.

Esses experimentos me parecem absolutamente corretos e por enquanto definitivos. Do contrário, não basearia minhas ações neles. No processo de aceitação ou rejeição de cada estágio de minhas experiências, tenho agido com responsabilidade. à medida que minhas ações satisfizerem razão e coração, irei, sem dúvida, manter-me fiel às minhas conclusões.

Se fosse discutir apenas princípios acadêmicos, certamente não estaria tentando escrever uma autobiografia. Como meu objetivo é fazer um relato das aplicações práticas desses princípios, dei-lhes o título de A História de Minhas Experiências com a Verdade. É claro que aqui estarão incluídos meus experimentos com a não-violência, o celibato e outros princípios de conduta considerados distintos da verdade. Para mim, a verdade é um princípio soberano, que engloba vários outros. Ela não é apenas a autenticidade da palavra, mas também a do pensamento. Não é a verdade relativa de nossa percepção, mas a Absoluta, o Princípio Eterno, que é Deus. Há inúmeras definições de Deus, porque são inúmeras as Suas manifestações, que inundam meu ser de admiração e respeito e, ao mesmo tempo, me atordoam. Venero a Deus como sendo a Verdade Única.

Ainda não O encontrei, mas continuo a procurá-Lo. Sinto-me preparado para sacrificar o que tenho de mais valioso em função dessa busca. Se for necessário, espero estar pronto para oferecer até minha própria vida. Mas, enquanto não assimilar a Verdade Absoluta, devo ater-me à relativa, da forma como a concebo, para que me ilumine e proteja. Embora o caminho seja penoso e arriscado, para mim tem sido o mais fácil e rápido de seguir. Até mesmo meus desatinos, grandes como os Himalaias, parecem-me insignificantes, pois tenho me mantido resoluto no caminho. Esse caminho impediu-me de entrar em desespero e ajudou-me a ir de encontro à minha luz.

Nessa jornada, tive pequenos vislumbres da Verdade Absoluta, de Deus, e a cada dia cresce minha convicção de que só Ele é real e tudo mais é irreal. Para os que se interessarem, exponho aqui como cresceu em mim esta convicção. Outra certeza inabalável é que o que é possível para mim o é até para uma criança, e tenho motivos para fazer tal afirmação. Os instrumentos de busca da verdade são ao mesmo tempo simples e complexos. Podem parecer impossíveis para uma pessoa orgulhosa, mas acessíveis a uma criança inocente. Aquele que busca a verdade deve, antes de tudo, ser tão humilde quanto o pó. O mundo pisa sobre o pó, mas quem persegue a verdade deve ser tão humilde que mesmo o pó poderia pisá-lo. Somente assim, vislumbraremos a verdade. O diálogo entre Vasishtha e Vishvamitra ilustra maravilhosamente essa experiência, assim como os preceitos do cristianismo e do islamismo.

Se o que escrevo nessas páginas parecer vaidade aos olhos e sentimentos do leitor, minha busca deverá ser então questionada, e meus vislumbres terão sido apenas uma miragem. A verdade deve prevalecer sempre, mesmo que para isso centenas de pessoas tenham de morrer. Portanto, ao julgar as palavras de um simples mortal como eu, não deixem que a verdade se enfraqueça nem por um milésimo de segundo.

Rezo para que ninguém considere definitivas as opiniões deste livro. As experiências aqui descritas devem ser tomadas apenas como ilustrações pessoais, da mesma forma que todos os indivíduos trazem em si vivências próprias, segundo sua inclinação e capacidade. Espero que, nesse contexto, minhas ilustrações possam ser úteis. Não esconderei ou omitirei qualquer coisa que deva ser dita a meu respeito, mesmo as ruins. Pretendo revelar ao leitor todos os meus defeitos e erros. O propósito maior é narrar o que vivi à luz do satyagraha e não vangloriar-me dos meus feitos. Na minha autocrítica, tentarei ser tão duro quanto a verdade, que é o que espero dos outros. Vendo-me por esse ângulo, devo exclamar, juntamente com Surdas:
Existirá um ser tão pérfido
e desprezível quanto eu?
De tão descrente de tudo,
abandonei meu Criador!
É muito doloroso e torturante perceber-me tão distante do Criador, aquele que é meu Pai e governa cada sopro de minha vida. Sei muito bem que são os sentimentos primários que carrego dentro de mim que me mantêm tão afastado d'Ele. Mesmo assim, não consigo evitá-los.

Devo encerrar esta introdução por aqui. Minha história começa no próximo capítulo.

M. K. Gandhi
Ashram de Sabarmati
26 de Novembro de 1925

Artigo publicado originalmente em 3 de Julho de 2008. Republicado em 2 de Outubro (de 2010) pois Gandhi nasceu neste dia do ano de 1869. (Dica de @sininho115)
Fonte: GANDHI, Mohandas K. Autobiografia: minha vida e minhas experiências com a verdade. São Paulo: Palas Athena, 1999.
Imagem: 3-D Maniac Mahatma Gandhi, por Okinawa Soba


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