sábado, 25 de abril de 2009

Boa Viagem

por Irene Ribeiro de Castro Siqueira*

    Existe em minha terra, velha terra povoada de lendas e histórias, uma passagem estreita e profunda entre dois barrancos, que o povo chama a “Cova da Boa Viagem”.
    Por que esse nome “Boa Viagem” quando a passagem é estreita e escura, no solo e nos lados apontam pedras, tudo enfim que possa dificultar a marcha do cavaleiro?
    Os homens se benzem assustados ao penetrar nela, as mulheres murmuram preces para o descanso eterno daquelas almas das quais as cruzes ali existentes mantém viva a presença.
    O eco das passadas dos cavalos ressoa lugubremente, lembra gemidos...
    Tal denominação nos encabulava e uma vez uma velha negra, remexendo no fundo de sua memória já cansada de tanto ver, de tanto ouvir, deu-nos a chave do enigma.
    Foi há muito tempo...
    A pretensiosa cidadezinha de hoje era apenas a Picada do Campo Grande da Conquista de Goiás.
    A descoberta do ouro em Goiás agitava os aventureiros. A “Picada” via passar aqueles homens que iam em busca do ouro e que muitas vezes voltavam com ele.
    À entrada daquele povoado humilde, destacava-se uma casa, a casa de Seu Salustiano.
    Ali os viajantes pousavam. Seu Salustiano era a própria gentileza, recebia-os amavelmente; peritas escravas tornavam sua cozinha afamada e a bela Dona Otília era a hospedeira perfeita.
    Conseguia dar ao seu recato de mineira tal graça e tal encanto, que os olhos dos viajantes, cansados de contemplar serras e montes, cansados de tanto interrogar o horizonte sobre a distância que os separava do alvo, esses olhos descansavam ao ver-lhe a figura gentil.
    À noite, na varanda, à luz das estrelas, os viajantes conversavam com o dono da casa. O ambiente era propício a confidências... Os forasteiros se deleitavam aos encontrar naquelas brenhas um espírito alegre e compreensivo.
    E falavam, falavam...
    Às vezes eram apenas planos, planos para a conquista da riqueza, planos esboçados ou já frustrados; mas de outras, era as vozes alegres daqueles que levavam consigo, como mensageiros ou proprietários, ouro, muito ouro.
    Um vinho cálido lhes destravava a língua, e Seu Salustiano, maneirosamente, os olhos brilhando no escuro, indagava tudo: o que levavam, quanto levavam, se não tinham medo dos aventureiros e ladrões que infestavam aquelas paragens.
    E os hóspedes, amáveis, se abriam.
    Finalmente, o dono da casa os aconselhava que fossem dormir, que era tarde, que precisavam madrugar.
    Os viajantes se deitavam em leitos macios, cheirando a alfazema, e, entre dois bocejos, elogiavam a bondade de Seu Salu, a beleza de Dona Otília.
    Na cozinha, dois escravos esperavam o patrão.
    As informações sobre o ouro que levavam eram cuidadosamente transmitidas aos pretos e lá saiam eles dentro da noite e iam para a emboscada, à entrada da estreita passagem.
    Madrugada escura, levantava-se Dona Otília; era-lhes servido um gostoso café e Seu Salu acompanhava-os até a porta desejando-lhes uma “Boa Viagem!”
    E assim caminhavam para a morte, levando com eles os votos amáveis de Seu Salu que lhes desejara “uma boa viagem”.
    Era a última voz humana que ouviam.
    O compasso dos cascos dos cavalos repetiam “Boa viagem!”, “Boa viagem!”

*minha querida Vó Nena, mãe de meu pai... nascida em Itapecerica-MG, professora, advogada, servidora pública aposentada, mãe de 4 filhos, avó de 7 netos, bisavó... e também escritora!

Encontros e Desencontros
Esta postagem faz parte da blogagem coletiva Encontros e Desencontros, do Blog Palavrentas e Escrevedores, da Aléxia. O textos serão publicados no blogue dela com o devido link.

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5 comentários

cova-do-urso disse...

Belíssimo texto. Muito bem escrito e enternecedor. Abraço.

Compulsão Diária disse...

Seu Salustiano e gangue, como todos os malandros são simpáticos, sedutores...
Belo blog.
Interessante

Gabriel Dread disse...

@António: que bom que gostou. (To respondendo tudo, meio atrasado mas pelo menos tô respondendo... eu chego lá!)

@Compulsão Diária: agradeço muito e irei repassar para minha avó seus elogios.

Abração
Gabriel Dread

Maria de Fátima disse...

Olá Gabriel gostei muito de ler este lindo conto.Beijinhos.

Gabriel Dread disse...

Maria de Fátima!

Vou retransmitir seu comentário à Dona Irene...

Abração
Gabriel Dread

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