Existe em minha terra, velha terra povoada de lendas e histórias, uma passagem estreita e profunda entre dois barrancos, que o povo chama a “Cova da Boa Viagem”.
Por que esse nome “Boa Viagem” quando a passagem é estreita e escura, no solo e nos lados apontam pedras, tudo enfim que possa dificultar a marcha do cavaleiro?
Os homens se benzem assustados ao penetrar nela, as mulheres murmuram preces para o descanso eterno daquelas almas das quais as cruzes ali existentes mantém viva a presença.
O eco das passadas dos cavalos ressoa lugubremente, lembra gemidos...
Tal denominação nos encabulava e uma vez uma velha negra, remexendo no fundo de sua memória já cansada de tanto ver, de tanto ouvir, deu-nos a chave do enigma.
Foi há muito tempo...
A pretensiosa cidadezinha de hoje era apenas a Picada do Campo Grande da Conquista de Goiás.
A descoberta do ouro em Goiás agitava os aventureiros. A “Picada” via passar aqueles homens que iam em busca do ouro e que muitas vezes voltavam com ele.
À entrada daquele povoado humilde, destacava-se uma casa, a casa de Seu Salustiano.
Ali os viajantes pousavam. Seu Salustiano era a própria gentileza, recebia-os amavelmente; peritas escravas tornavam sua cozinha afamada e a bela Dona Otília era a hospedeira perfeita.
Conseguia dar ao seu recato de mineira tal graça e tal encanto, que os olhos dos viajantes, cansados de contemplar serras e montes, cansados de tanto interrogar o horizonte sobre a distância que os separava do alvo, esses olhos descansavam ao ver-lhe a figura gentil.
À noite, na varanda, à luz das estrelas, os viajantes conversavam com o dono da casa. O ambiente era propício a confidências... Os forasteiros se deleitavam aos encontrar naquelas brenhas um espírito alegre e compreensivo.
E falavam, falavam...
Às vezes eram apenas planos, planos para a conquista da riqueza, planos esboçados ou já frustrados; mas de outras, era as vozes alegres daqueles que levavam consigo, como mensageiros ou proprietários, ouro, muito ouro.
Um vinho cálido lhes destravava a língua, e Seu Salustiano, maneirosamente, os olhos brilhando no escuro, indagava tudo: o que levavam, quanto levavam, se não tinham medo dos aventureiros e ladrões que infestavam aquelas paragens.
E os hóspedes, amáveis, se abriam.
Finalmente, o dono da casa os aconselhava que fossem dormir, que era tarde, que precisavam madrugar.
Os viajantes se deitavam em leitos macios, cheirando a alfazema, e, entre dois bocejos, elogiavam a bondade de Seu Salu, a beleza de Dona Otília.
Na cozinha, dois escravos esperavam o patrão.
As informações sobre o ouro que levavam eram cuidadosamente transmitidas aos pretos e lá saiam eles dentro da noite e iam para a emboscada, à entrada da estreita passagem.
Madrugada escura, levantava-se Dona Otília; era-lhes servido um gostoso café e Seu Salu acompanhava-os até a porta desejando-lhes uma “Boa Viagem!”
E assim caminhavam para a morte, levando com eles os votos amáveis de Seu Salu que lhes desejara “uma boa viagem”.
Era a última voz humana que ouviam.
O compasso dos cascos dos cavalos repetiam “Boa viagem!”, “Boa viagem!”
*minha querida Vó Nena, mãe de meu pai... nascida em Itapecerica-MG, professora, advogada, servidora pública aposentada, mãe de 4 filhos, avó de 7 netos, bisavó... e também escritora!
Esta postagem faz parte da blogagem coletiva Encontros e Desencontros, do Blog Palavrentas e Escrevedores, da Aléxia. O textos serão publicados no blogue dela com o devido link.





5 comentários
Belíssimo texto. Muito bem escrito e enternecedor. Abraço.
Seu Salustiano e gangue, como todos os malandros são simpáticos, sedutores...
Belo blog.
Interessante
@António: que bom que gostou. (To respondendo tudo, meio atrasado mas pelo menos tô respondendo... eu chego lá!)
@Compulsão Diária: agradeço muito e irei repassar para minha avó seus elogios.
Abração
Gabriel Dread
Olá Gabriel gostei muito de ler este lindo conto.Beijinhos.
Maria de Fátima!
Vou retransmitir seu comentário à Dona Irene...
Abração
Gabriel Dread
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